Ocupar todos os lugares também é visibilidade
Visibilidade não acontece apenas em datas simbólicas ou em espaços tradicionalmente associados à pauta trans. Ela acontece, sobretudo, quando ocupamos todos os lugares.
Todos os meses eu corro de kart, participo de um campeonato feminino e sou apaixonada pelas pistas, pela técnica, pela concentração e pela adrenalina. É um ambiente ainda bastante elitista, conservador e com pouquíssimas mulheres trans. Mesmo assim, gosto de ocupar esse espaço, de mostrar que sim, podemos ser pilotas também. E faço questão de registrar que sempre fui muito bem recebida pelas meninas do campeonato e pela equipe do kartódromo. Quando o respeito vem, ele precisa ser reconhecido (E, se algum patrocinador estiver lendo isso, fica aqui o convite para um patrocínio).
Em outro contexto, sempre que consigo, participo de um grupo de corrida de rua formado por pessoas trans. Ali o ritmo é outro, as histórias se cruzam, as vivências se reconhecem. Estar entre semelhantes é minha dose de vitamina T. É afeto, pertencimento e respiro.
Esses dois ambientes são diferentes, quase opostos à primeira vista, mas ambos são fundamentais para mim. Porque visibilidade também é isso: circular, transitar, existir sem precisar caber em uma única narrativa.
Quando a arte também é visibilidade
A arte sempre foi outra forma de ocupar espaços e comunicar quem somos. Além das palestras, publiquei o livro Ma – Eu. Mulher. Trans., com turnê de lançamento em vários estados, e estou lançando o segundo nas próximas semanas, Lisa e Myle. Já realizei dois curta-metragens e estou no início da produção de um terceiro.
Nada disso é sobre excepcionalidade. É sobre normalizar existências, ampliar repertórios e mostrar que pessoas trans vivem, criam, competem, escrevem, correm, trabalham e sonham.
Atuar, dialogar e provocar reflexões é importante. Mas também há dias em que eu só quero algo simple. Ir à padaria em paz, tomar um café com leite, comer um pão na chapa… Talvez essa seja, no fim, uma das formas mais profundas de visibilidade: poder viver momentos comuns com tranquilidade. Porque existir não deveria exigir esforço o tempo todo.


