Fetichização não é reconhecimento
Ao longo da minha vida profissional, aprendi que nem toda aproximação é respeito, nem toda curiosidade é interesse legítimo e nem toda “atenção” é reconhecimento. Logo após meu processo de afirmação de gênero, um colega do banco passou a conversar comigo com frequência. Eram diálogos longos, aparentemente cuidadosos. Depois de um tempo, em um gesto simples, quase adolescente, eu o convidei para ir ao cinema. A resposta veio como um choque: ele disse que não poderia, porque aquele era o dia de levar a esposa para a aula. Eu não sabia que ele era casado. Cortei a conversa ali.
Naquele momento, algo ficou muito claro para mim: meu corpo havia passado a ser fetichizado. Não havia ali interesse em afeto, relação ou encontro. Eu ocupava outro lugar, silencioso, conveniente, oculto. Depois disso, perdi as contas de quantas vezes fui abordada por colegas e por pessoas fora do ambiente de trabalho sempre no mesmo tom. Conversas que rapidamente se reduziam à sexualidade. Olhares que não enxergavam minha trajetória, história ou profissionalismo. Como se eu fosse apenas um corpo disponível para atender expectativas alheias.
Quando o corpo apaga a pessoa
Durante muito tempo, inclusive, eu ainda não havia conseguido elaborar algo fundamental sobre mim: minha própria orientação sexual. Foram tantos anos fingindo para sobreviver, tentando apenas existir com segurança, que entender quem eu era e de quem eu gostava ficou em segundo plano. Até isso me foi roubado pelo excesso de vigilância, projeções e expectativas externas.
Fetichização é uma forma sofisticada de desumanização. Ela transforma pessoas em objetos. E objetos não exigem cuidado, respeito ou responsabilidade. Quando isso acontece, o sujeito desaparece e sobra apenas o corpo atravessado por desejos que não lhe pertencem.
Por que isso é um tema organizacional
Este não é apenas um tema pessoal. É um tema organizacional. Empresas precisam deixar claro, em sua cultura, que não toleram desrespeito, que relações de poder não autorizam atravessar fronteiras e que diversidade não legitima invasão, curiosidade indevida ou erotização.
Ambientes seguros não se constroem apenas com políticas no papel. Eles se constroem com posicionamento claro, formação contínua e consequências reais para quem ultrapassa esses limites. E aqui vai uma regra simples, que sempre compartilho em palestras: se uma pergunta ou uma ação não faz sentido ser feita a uma pessoa cisgênera, ela não deve ser feita a uma pessoa trans.
Reconhecimento não é ser desejada como exceção. É ser respeitada como sujeito. E nenhuma cultura organizacional pode se dizer saudável enquanto corpos ainda são tratados como objetos.


